Licença própria ou parceiro autorizado: qual é o melhor caminho para exchanges no Brasil?

Regulação

Estátua de uma mulher segurando uma balança que representa regulação, leis e justiça

Com a entrada em vigor do novo marco regulatório para prestadoras de serviços de ativos virtuais, exchanges que atuam ou pretendem atuar no Brasil passaram a enfrentar uma decisão estratégica: obter uma licença própria junto ao Banco Central (BCB) ou operar por meio de um parceiro já autorizado.

Cada modelo envolve custos, responsabilidades e prazos diferentes. Enquanto a licença própria oferece mais autonomia, operar sobre a infraestrutura de uma prestadora de serviços de ativos virtuais (PSAV) autorizada pode acelerar a entrada no mercado e reduzir a complexidade regulatória.

Neste artigo, explicamos como cada modelo funciona e quais fatores as exchanges devem considerar antes de tomar essa decisão.

Duas formas de operar no Brasil

Constituir uma SPSAV própria

A exchange assume diretamente a obtenção da autorização junto ao Banco Central, com pessoa jurídica brasileira, administração local, capital mínimo e toda a estrutura de compliance, governança e reporte exigida de uma instituição regulada.

Operar por meio de um parceiro autorizado

A exchange mantém sua marca e o relacionamento com o cliente final, enquanto roda a operação regulada — incluindo custódia, liquidez, câmbio e compliance — sobre a licença e a infraestrutura de um parceiro que já atende às exigências do Banco Central.

Aspecto

Licença própria

Parceiro autorizado

Tempo para iniciar

Meses

Semanas

Capital mínimo

Obrigatório

Não exigido

Estrutura local

Obrigatória

Não exigida

Compliance

Interno

Compartilhado com o parceiro

Custódia

Própria

Pela infraestrutura do parceiro

Foco da exchange

Operação + regulação

Produto e crescimento

O que envolve obter uma licença própria?

Montar uma SPSAV do zero envolve mais do que preencher um pedido de autorização. São compromissos financeiros e operacionais que permanecem durante toda a operação, e não apenas na estruturação inicial.

Exigência elevada de capital mínimo

Os valores mínimos de capital social e patrimônio líquido variam conforme as atividades exercidas — intermediação, custódia ou ambas — e vão de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões. Esse valor precisa ser mantido, e não apenas comprovado uma vez no processo de autorização.

Além do investimento inicial, esse capital precisa ser mantido durante toda a operação, o que o torna um compromisso permanente, e não só um requisito para obter a autorização.

Presença física e administração local

A regulação exige sede de uso exclusivo no Brasil — coworkings e escritórios compartilhados não são permitidos — além de administradores residentes no país. Para uma exchange internacional, isso significa montar uma operação local do zero, e não apenas constituir uma pessoa jurídica brasileira.

Para grupos internacionais, por exemplo, isso significa estruturar uma operação local completa, com equipe, administração local e sede exclusiva, o que aumenta significativamente o investimento necessário para atuar no país.

Exigências prudenciais crescentes

Em 1º de julho de 2026, o Banco Central publicou a Resolução BCB nº 580, que classifica as SPSAVs como instituições Tipo 3, o mesmo regime aplicado a corretoras e distribuidoras de títulos e valores mobiliários. A partir de 1º de janeiro de 2027, passam a valer exigências de capital, gerenciamento de riscos e divulgação de informações equivalentes às aplicáveis a essas instituições. Até 30 de junho de 2028, as SPSAVs também precisam estar enquadradas no Segmento 4 (S4), independentemente do porte.

Na prática, o custo de manter uma operação com licença própria em conformidade com o marco regulatório tende a aumentar nos próximos anos, e não a se estabilizar.

Tempo até operar como instituição autorizada

Entre constituir a sociedade, aportar o capital mínimo, implementar a governança exigida e aguardar a análise do Banco Central, o processo de autorização de uma SPSAV costuma levar meses, não semanas. A Instrução Normativa BCB nº 704 define os documentos e critérios exigidos no pedido, mas não elimina o prazo de análise.

Para uma exchange que já tem clientes no Brasil, cada mês de atraso é mais um mês de exposição regulatória.

Operar por meio de infraestrutura já licenciada

Para muitas exchanges, operar sobre a infraestrutura de uma PSAV autorizada é a forma mais rápida de atender ao mercado brasileiro sem assumir diretamente toda a complexidade regulatória.

Um parceiro de infraestrutura regulada já tem a autorização, o capital e os controles exigidos pelo Banco Central. A exchange conecta sua operação via API e mantém o relacionamento com o cliente final, sem precisar replicar internamente cada camada de compliance.

Isso pode incluir custódia segregada dos ativos dos clientes, liquidez para execução de ordens, conversão entre moeda fiduciária e criptoativos, pagamentos internacionais dentro dos limites cambiais aplicáveis e o reporte contínuo exigido pelo regulador.

O fluxo funciona assim: o cliente final continua interagindo apenas com a marca da exchange. Por trás da interface, cada ordem de compra, venda ou saque é processada pela infraestrutura do parceiro, que já responde perante o Banco Central pela parte regulada da operação.

A exchange não precisa reportar diretamente ao regulador nem manter estrutura própria de custódia segregada — essas capacidades já vêm embutidas na integração.

Esse modelo também reduz o tempo até o mercado. Enquanto a obtenção de uma licença de PSAV pode levar meses, uma integração via API com um parceiro já licenciado costuma levar semanas, já que a camada regulatória já está pronta.

Quais são as vantagens de usar um parceiro de infraestrutura?

Construir internamente uma operação financeira local pode exigir várias integrações e uma estrutura operacional complexa. Para exchanges que já têm uma plataforma global, trabalhar com um parceiro especializado pode simplificar o processo.

Menos integrações

Em vez de estabelecer conexões separadas com diferentes instituições e fornecedores, a exchange pode acessar vários serviços por meio de uma única integração.

Isso reduz o esforço necessário para desenvolver e manter várias conexões técnicas.

Acesso à infraestrutura local

Um parceiro especializado pode conectar a exchange aos trilhos financeiros usados no mercado brasileiro, como Pix, pagamentos e liquidação em reais.

Integração mais rápida

As APIs permitem incorporar serviços financeiros à infraestrutura existente da exchange sem que a plataforma precise ser reconstruída.

Mais escalabilidade

À medida que o número de usuários e de transações aumenta, a infraestrutura precisa acompanhar esse crescimento. O acesso a liquidez, pagamentos e diferentes trilhos financeiros pode facilitar a expansão da operação.

Foco no produto

Ao usar uma infraestrutura especializada, a exchange pode concentrar seus recursos no desenvolvimento do próprio produto, na melhoria da experiência do usuário e na expansão para novos mercados.

Stablecoins

Além da integração com o sistema financeiro tradicional, as stablecoins podem tornar mais eficiente a liquidação entre diferentes mercados.

Enquanto ativos como USDT e USDC são amplamente usados em operações internacionais, uma stablecoin pareada ao real, como o BRZ, pode representar o BRL em blockchain e facilitar a movimentação de recursos entre o sistema financeiro brasileiro e o ecossistema de ativos digitais.

Esse modelo reduz etapas de conversão e pode aumentar a eficiência em determinados fluxos, especialmente em operações que envolvem mais de uma moeda.

O que avaliar em um parceiro de infraestrutura

  • Licença ativa e enquadramento como PSAV — confirme que a autorização já cobre as atividades necessárias, seja intermediação, custódia ou ambas.

  • Segregação patrimonial comprovada — recursos e ativos dos clientes precisam ser mantidos separados dos recursos próprios da plataforma.

  • Cobertura cambial — capacidade de operar dentro dos limites estabelecidos pela Resolução BCB nº 521 para transferências internacionais.

  • Compliance e reporte — controles de PLD (prevenção à lavagem de dinheiro) e KYC já alinhados às exigências do Banco Central e da Receita Federal.

  • Histórico operacional — tempo de operação regulada no Brasil, e não apenas uma autorização concedida recentemente.

Infraestrutura da Transfero para exchanges

A regulação do mercado de ativos digitais está mudando a forma como as exchanges estruturam suas operações no Brasil. A escolha entre obter uma licença própria e usar uma infraestrutura já autorizada depende da estratégia de cada empresa, do tempo disponível para entrar no mercado e dos recursos que ela está disposta a dedicar à conformidade regulatória.

Para organizações que buscam acelerar esse processo, operar por meio de uma PSAV autorizada pode reduzir a complexidade operacional sem abrir mão das exigências de compliance estabelecidas pelo Banco Central.

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